A 04 de junho de 2017 a Douro Generation e a Rede de Aldeias Vinhateiras do Douro proporcionaram a realização do concerto “E lhe Chamam a Nova Corte: A Música no Tempo de D. Luís António, 4º Morgado de Mateus”, pelo Americantiga Ensemble, na igreja de Jou, Murça, no âmbito das iniciativas “Caminhos de Mateus” e “World Generation Week”.

Este concerto foi cofinanciado pelo Norte 2020 no âmbito do projeto “Douro em Movimento, Aldeias com Vida”.

A Música no Tempo de D. Luís António, 4º Morgado de Mateus

O primeiro programa propôs uma digressão musical contemporânea à vida de D. Luis António, a começar com a música produzida em Portugal durante sua juventude, assim como os modelos estilísticos italianos que moldaram a mudança do gosto na corte nos reinados de D. João V e D. José I.  Enquanto na música sacra católica o estilo que prevaleceu foi o romano, na ópera foram os napolitanos a ditarem as regras por toda a Europa. Na Capela Real de Lisboa o conimbricense Carlos Seixas (1704 – 1742) trabalhou com Domenico Scarlatti (1685 – 1757) e, entre suas várias obras para teclado, compôs uma Abertura em Si bemol maior que pode ter sido originalmente destinada à introdução de uma ópera ou serenata de corte. Scarllati passa a viver em Madrid a partir de 1733 para ser professor da princesa Maria Bárbara e tem intenso contacto com os irmãos Broschi: Riccardo o compositor e Carlo, o famoso castrato conhecido por Farinelli. A ópera napolitana prezava pela exibição das capacidades extremas dos cantores, como pode ser visto na ária “Son qual nave agitata” da ópera Idaspe, composta para o castrato Farinelli, composta por Riccardo Broschi para ser representada em Veneza em 1730. A música instrumental, por seu lado, teve especial desenvolvimento também em Veneza, onde actuava António Vivaldi e cuja obra foi amplamente divulgada por toda a Europa, servindo de inspiração para vários compositores como a exemplo de Johann Sebastian Bach (1685 – 1750).

Durante seu tempo no Brasil D. Luis António foi responsável pela criação e manutenção de uma Casa da Ópera na vila de São Paulo, sítio em que com frequência eram representados espectáculos de teatro-musical sérios e cómicos, muitas vezes adaptados das óperas em voga em Lisboa, como as ópera de António José da Silva, O Judeu e óperas de outros centros europeus. Em seu estudo sobre o Diário de D. Luis António, Rui Vieira Nery chama a atenção para a representação em São Paulo a 16 de Julho de 1772 citada por D. Luís António em seu Diário de uma ópera identificada como Chiquinha, o que supomos poder fazer referência à La cecchina ossia La buona figliuola (1760), ópera cómica com música de Niccòllo Piccini e libretto de Carlo Goldoni, de estrondoso sucesso na época e representada por toda a Europa.

Um compositor cosmopolita português do período que chegou a ter obras publicadas em Londres foi Pedro António Avondano (1714 – 1782), de quem trazemos duas das suas breves sinfonias para cordas como obra de ligação entre as duas últimas partes do programa.

Como parte final deste concerto, são apresentadas obras que fizeram parte da vida na corte de D. Maria I, tendo a figura de António Leal Moreira (1758 – 1819) profícuo compositor de Serenatas de corte, assim como por ter sido o primeiro director musical do Real Teatro de São Carlos em 1793. De sua primeira farsa escrita originalmente em português em 1793 para recém-inaugurado teatro e intitulada A saloia namorada ou o Remédio é casar, trazemos a introdução instrumental e a ária “Não há neste mundo ninguém mais ditosa”, com música do próprio Leal Moreira e texto do poeta brasileiro radicado em Lisboa, Domingos Caldas Barbosa.

Americantiga ​Ensemble

Sandra Medeiros – soprano
Tera Shimizu – violino I
Álvaro Pinto – violino II
Pedro Braga Falcão – viola
Luís André Ferreira – violoncelo
Marta Vicente – contrabaixo
Luís Marques – oboé
Ricardo Bernardes – cravo e direção

E lhe Chamam a Nova Corte – A Música no Tempo de D. Luís António, 4º Morgado de Mateus

Reinado de D. João V – o modelo italiano

Carlos Seixas (1704 – 1742) – Abertura em Si bemol maior

Riccardo Broschi (c. 1698 – 1756) – Ária “Son qual nave” da ópera Idaspe (Veneza, 1730)

Antonio Vivaldi (1678 – 1741) – Concerto para oboé, cordas e contínuo em ré menor RV 454

A ópera na Corte de Lisboa e a Ópera de São Paulo

João de Sousa Carvalho (1745 – 1798)

Ária “Per me freme irato il vento” da ópera L’amore industrioso (1769)

Pedro António Avondano (1714 – 1782)

– Sinfonia em ré maior – Allegro, Largo, Allegro

Christoph Willibal Gluck (1714 – 1787)

Ópera Orfeo ed Euridice (1762) – Ária “Che fiero momento”

Pedro António Avondano (1714 – 1782)

– Sinfonia em fá maior – Allegro, Largo, Allegro

Niccòllo Piccinni (1728 – 1800) Ária “Una povvera ragazza” da ópera La Cecchina ossia La buona figliuola (1760)

Óperas e O Teatro de São Carlos

António Leal Moreira (1758 – 1819)

Abertura de A saloia namorada (1793)

Ária Albina Saloia “Não há neste mundo”

A segunda etapa do ciclo de concertos “Caminhos de Mateus – Aldeias com Vida” ocorrereu em 2017 com mais programas dedicados aos caminhos percorridos pela música no século XVIII: sendo dois dedicados aos repertórios do tempo do 4º Morgado de Mateus, D. Luis António de Sousa Botelho Mourão (1722 – 1798), governador da capitania de São Paulo no Brasil entre 1765 e 1774, assim como uma homenagem ao grande trabalho realizado por seu filho e 5º Morgado de Mateus, D. José Maria de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos (1758 – 1825), responsável pela edição monumental em 1817 de Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões.

O primeiro programa, A Música no Tempo de D. Luís António, 4º Morgado de Mateus, apresentado pelo agrupamento Americantiga acompanhado da soprano solista Sandra Medeiros, propõe uma digressão musical contemporânea à vida de D. Luis António, 4º Morgado de Mateus, com a música instrumental e de ópera produzida e representada em Portugal e no Brasil que moldaram a evolução do gosto na corte portuguesa durante os reinados de D. João V, D. José I e D. Maria I.

O segundo programa, apresentado pelo Quarteto Atégina, compõe-se de quartetos de cordas de dois compositores que ajudam a contar os caminhos da música instrumental em Portugal e Espanha na segunda metade do séc. XVIII. Serão apresentados quartetos de Luigi Boccherini (1743 – 1805), compositor italiano desde 1761 ao serviço da corte de Madrid e do lisboeta João Pedro de Almeida Mota (1744 – 1817) que, por ter feito sua carreira também em Espanha, ainda é pouco conhecido do público português.

Como terceiro programa, o Trio Alter-Natives apresenta o espectáculo “Fatal Tormenta” que propõe a ideia de uma viagem atribulada e exótica que une declamação e improvisação vocal e instrumental sobre textos poéticos de Luís Vaz de Camões e música de seu tempo.

No último fim de semana, António Carrilho e Helena Marinho apresentam o seu recital de Flauta de Bisel e Cravo e, a finalizar, numa colaboração com o Conservatório Regional de Música de Vila Real, Caminhos de Mateus acolhe o Concerto de Laureados do Prémio Elisa de Sousa Pedroso, concurso anual de interpretação dedicado às modalidades de Piano e Violino.

Saiba mais sobre o programa Caminhos de Mateus 2017 aqui.