A 24 de novembro de 2017 a Douro Generation realizou uma missão a Lavaux, na Suíça, para desenvolvimento do relacionamento com a entidade gestora do sítio Património Mundial de Lavaux, um território vinhateiro que, tal como o Douro, se caracteriza pela sua vinha em socalcos.

Esta missão decorreu no âmbito do projeto “Douro em Movimento, Aldeias com Vida”, cofinanciado pelo Norte 2020.

OBJETIVOS

  1. Estabelecer o contacto com a Associação Lavaux Patrimoine mondial
  2. Conhecer melhor o Bem e trocar conhecimento;
  3. Preparar o estabelecimento de protocolo de cooperação.

PROGRAMA

Manhã
-Reunião introdutória
-Visita ao sítio Património Mundial “Lavaux, – vignoble en terrasses”
Tarde
-Reunião exploratória com o gestor do sítio Património Mundial

Em Lavaux encetámos o contacto com a Association Lavaux Patrimoine mondial, que foi criada em 2013 com o propósito especifico de assumir a gestão do Sítio Património Mundial de “Lavaux, Vignoble en Terrasses”. Esta entidade está administrativamente sob alçada dos serviços de Cultura do cantão de Vaud, que é quem emite as diretrizes para a região, realiza a promoção turística e suporta financeiramente (em parte) a atividade daquela associação.

Para além do cantão de Vaud, a associação obtém financiamento através de subvenções atribuídas pelos municípios da região, num modelo desenvolvido recentemente, mas ainda em processo de aperfeiçoamento. A Associação trabalha com base em planos anuais, mediante as subvenções que lhe são atribuídas por períodos de apenas um ano, mas pretende alargar o período de financiamento para três anos, de modo a ser capaz de trabalhar projetos de médio prazo e a gerir o seu orçamento com uma visão mais alargada.

A valorização do Património em Lavaux antecede em pelo menos três décadas a classificação da UNESCO. Na década de 1970 a população do cantão de Vaud votou favoravelmente em referendo uma proposta de impedimento de alterações à morfologia e ordenamento do território de Lavaux, de modo a preservar a paisagem e a impedir a sua descaracterização pelo crescimento de novas formas de habitação e pela especulação imobiliária. Esta foi uma votação a nível federal que não teve uma total aceitação da população local, pelo que hoje se denota em Lavaux um baixo nível de envolvimento nas questões fundamentais para o território e para resolução dos problemas identificados. Esta é uma realidade que a atual equipa de gestão pretende inverter, aproximando o seu trabalho das populações, envolvendo-as e responsabilizando-as pelas soluções e pelo trabalho de desenvolvimento da região, até porque são várias as aldeias e vilas enquadradas na paisagem cultural de Lavaux, com uma curta distância entre elas, muitas vezes inferior a 1km.

Na estrutura de governação da associação está, precisamente, refletida a procura pelo envolvimento da comunidade de forma mais ativa. Existe um comité de 15 representantes, a quem a Direção da associação reporta, e que detém poderes ratificativos ou sancionatórios das propostas e ações da Direção. Este comité conta com representantes de municípios, universidades, empresas, produtores de vinho e da população local. Na estrutura de gestão, que foi recentemente modificada, existe um departamento de Mediação, que é uma das faces mais visíveis da aproximação à população local e demais stakeholders. Das suas competências destacam-se a organização de iniciativas pedagógicas e didáticas junto das escolas e dos visitantes, a criação de um Centro Interpretativo, a coordenação das atividades dos guias (40 ativos), a procura por fontes de financiamento e a formação para estagiários.

Para além do departamento de Mediação, existem os de Gestão, Promoção e Turismo, sendo o de Gestão o mais preponderante, visto que o principal papel desta equipa é o de monitorização do território de modo a manter a classificação da UNESCO. Este trabalho desenvolve-se com base na articulação e equilíbrio entre quatro fatores: Ambiente, Património, Habitantes e Estrutura económica. Atualmente este equilíbrio está ameaçado por um problema crescente: a mudança do perfil de habitante. Nos últimos anos tem aumentado o número de pessoas que adquirem casas e propriedades pelo seu valor turístico, enquadramento paisagístico ou proximidade a Lausanne, sem qualquer interesse pela exploração da vinha. Existe, portanto, um consequente risco de abandono da atividade vitivinícola, que altera os fatores Estrutura económica e Património. O grande desafio passa, por isso, por regulamentar a posse e atividade desenvolvida nas propriedades.

A associação e a região não têm um trabalho muito evoluído na área da promoção turística e dos produtos locais, pois a promoção é maioritariamente
levada a cabo pelo cantão de Vaud. Lavaux é uma zona de passagem inevitável para quem percorre o lago seja de carro, de barco ou de comboio, entre Lausanne e Montreux. No entanto, esta passagem nem sempre se traduz numa permanência na região. Lavaux não é ponto de paragem para as embarcações turísticas. O alojamento local é reduzido, não havendo muitos enoturismos, as visitas a quintas são raras e apenas por marcação, e só recentemente abriram as primeiras lojas de prova e venda dos produtos locais. Todavia, na recente reestruturação da organização da equipa de gestão, foram introduzidos os departamentos de Promoção e Turismo, para desenvolvimento e acompanhamento dessas áreas.

Lavaux é um pequeno e regulamentado “jardim” com cerca de 800ha, fragmentado em propriedades de pequenas dimensões com áreas médias de 3ha. Cada proprietário produz o próprio vinho, internalizando todo o processo de produção desde a vindima à comercialização, pelo que a região detém um elevado número de produtores e vinhos face à sua área total. Apesar de nesta região, devido à dimensão das propriedades, a vindima se processar de forma manual, existe a mecanização de vários processos, nomeadamente no tratamento das vinhas, onde inclusive realizam intervenções de helicóptero para fertilização, ou na vinificação e engarrafamento onde cada produtor realiza e armazena na sua “garagem”. Maior parte da produção é de vinhos brancos (80%), sendo maioritariamente vendida no mercado interno. As exportações são insignificantes, embora já exista a exportação para o mercado asiático, na China e Japão, de onde chegam também alguns turistas.

Apesar de pequeno, o território de Lavaux é diverso, especialmente no que respeita à exposição solar e constituição dos solos, pelo que existem três denominações de origem dos vinhos: Lavaux (com oito tipologias), Calamin e Dézaley. A casta local, a chasselas, tem 19 tipologias mas nem todas são utilizadas para a produção. Existe, no entanto, um “conservatoire” com bardos de cada uma delas, não só para efeitos de preservação mas também de investigação científica. Neste âmbito, a associação LPm tem um relacionamento próximo com a Universidade de Lausanne, com que desenvolvem projetos de investigação em várias áreas, nomeadamente da vinha e de monitorização de dados fundamentais sobre o território, clima, população ou economia. Atualmente esta região debate-se com um problema sob o ponto de vista dos solos e dos muros, devido à acumulação da água das chuvas, o que coloca em risco a os terraços e a paisagem característica deste sítio Património Mundial. É uma área na qual pretendem desenvolver investigação e procurar formas de prevenção e de mitigação dos efeitos.

A identidade do território está marcada pela sua história (romana e medieval) numa relação excecional com o lago e a exposição climática. Lavaux é uma região privilegiada, que beneficia de “três sóis”: o sol, o seu reflexo no lago e a acumulação de calor e reflexo nos muros dos “terrasses”. Tal como no Douro, estes muros conferem às propriedades uma organização e contenção adequadas às dimensões das propriedades, beneficiando as vinhas com a acumulação de calor. São, no entanto, maioritariamente construídos em pedra e cimento.

No que concerne à realização de atividades socioculturais, Lavaux não tem uma agenda muito diversificada. Detém, contudo, um evento de referência: la Fête des Vignerons (festival das vindimas), que acontece com uma periodicidade indefinida, mas de cerca de 20 anos. Acontecerá novamente em 2019 e espera-se que venha a ser mais um sucesso a promoção da região e dos seus produtos.

CONCLUSÕES
Deste primeiro encontro entre a Douro Generation e a associação Lavaux Patrimoine mondial ficou patente a existência de interesses comuns que podem ser explorados no futuro. Abriram-se portas para uma cooperação (através de protocolo cujos moldes serão trabalhos de ora em diante) que permita a troca de conhecimento, experiências e boas práticas, bem como a procura de meios e recursos que viabilizem a realização de projetos conjuntos.

Com Lavaux existe a possibilidade de aprender boas práticas de gestão do território e, essencialmente, de organização interna da associação. A Douro
Generation pode contribuir para a valorização do trabalho da LPm através da partilha de informações e boas práticas de promoção internacional do território e dos produtos endógenos. A proximidade de ambas as entidades às universidades locais (Lausanne e Trás-os-Montes e Alto Douro) é uma oportunidade para o desenvolvimento de projetos conjuntos na área de investigação sobre o território, património e alterações climáticas. Este último tema foi abordado na reunião exploratória e constitui uma preocupação para as regiões vinhateiras com características morfológicas como Lavaux e o Alto Douro Vinhateiro e que pode ser estudada em cooperação.

Em suma, pelo que foi possível ver, aprender e partilhar, a associação Lavaux Patrimoine mondial poderá ser uma importante entidade parceira, em especial para o desenvolvimento de projetos nas áreas da investigação, da promoção turística, do intercâmbio cultural e da partilha de modelos de gestão. Seria, por isso, importante receber no Douro estes parceiros para se estreitar o relacionamento e dar continuidade ao trabalho agora encetado.

Pela Douro Generation
LAURENT FILIPE Membro da Equipa Técnica da Douro Generation
TIAGO MENDES Membro da Equipa Técnica da Douro Generation

Pela Associação Lavaux Patrimoine mondial
Emmanuel Estoppey
Jeanne Corthay
Aline Rochat
Matthew Richards