Um grupo de três cidadãos portugueses visitou a ilha de Santiago em Cabo Verde entre os dias 09 e 16 de janeiro de 2016. Do grupo faziam parte Helena Teles representante da Missão Douro (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte), António Martinho, presidente da Douro Generation – Associação de Desenvolvimento e Ana Moreno, também da Direção desta associação.

Resumo
O convite para participar na Conferência Internacional “Festividades de Nhu Santo Amaro: Património Religioso, Turismo e Desenvolvimento”, inserida nas festas de Nhu Santo Amaro Abade, na cidade do Tarrafal, vem no seguimento do contacto e participação de Hamilton Jair, na qualidade de curador da na UTAD, Vila Real.

A partir de então, e estabelecida a relação de cooperação, foi endereçado à Douro Generation o convite de participar na conferência com a sua experiência, e a mesma julgou útil convidar a CCDR-N, uma vez que esta é a entidade gestora do bem Alto Douro Vinhateiro, Património da Humanidade.

Atendendo a que a Câmara Municipal do Tarrafal se encontra a elaborar o dossier de candidatura da Festas de Nhu Santo Amaro a património imaterial nacional, tendo em Jair Hamilton o seu coordenador, bem como à necessidade de discutir o valor da classificação da UNESCO, e outro património cultural na atração de turistas, em especial ao Tarrafal, julgou-se útil a presença das duas entidades já enunciadas, Douro Generation e CCDRN (Missão Douro).

Assim sendo para além das apresentações na conferência e a respectiva explanação teórica e técnica dos ações desenvolvidas no Alto Douro Vinhateiro, foi possível visitar a cidade do Tarrafal, toda a paisagem
natural da ilha de Santiago, o Centro de Artes e Ofícios na província de Trás-os-Montes, a Cidade Velha Património da Humanidade, o Campo de Concentração do Tarrafal e a cidade da Praia. Todas estas visitas permitem hoje ter visão ampla das potencialidades turísticas da Ilha de Santiago em coordenação com as restantes.
O contacto com Presidente da República, permitiu estreitar laços institucionais, o que poderá ser útil em futuras ações. Estar presente na entrega de uma casa a pessoas desfavorecidas ajuda na compreensão das necessidades mais prementes dos cabo verdianos, e da própria organização desta sociedade.

Conferência Internacional Festas Nhu Santo Amaro: Património Religioso, Turismo e Desenvolvimento
Data: 11 e 12 de Janeiro 2016-01-18
Local: Tarrafal de Santiago – SALÃO NOBRE DA CÂMARA MUNICIPAL

DIA 10 DE JANEIRO
Os três membros da delegação foram recebidos pelo Presidente da Câmara do Tarrafal, José Pedro Nunes Soares, que agradeceu a vinda da comitiva como forma de partilhar experiências e conhecimentos na área da cooperação internacional e gestão patrimonial e da, com especial relevo para os sítios classificados como património da humanidade pela UNESCO. Ao mesmo foram oferecidos dois livros alusivos ao Douro e à sua região classificada, como forma de promoção da região do Douro e
de agradecimento pelo convite endereçado em participar na conferência internacional.

DIA 11 DE JANEIRO
O primeiro dia de conferências contou, na sua abertura, com a intervenção do Presidente da Câmara Municipal do Tarrafal, José Pedro Nunes Soares, bem como do Pároco da Paróquia de Sto Amaro Abade,
Padre Joaquim Garcia.

PAINEL I AS FESTAS DE ROMARIA E A IDENTIDADE LOCAL
Moderador: Eveline Nair (CMT)
11h00 – Festividades de Nhu Santo amaro rumo a Património Nacional
Hamilton Jair (IPC – Instituto do Património Cultural)
11h20 – Os Santos Populares e a Tradição Cultural em Cabo Verde
José Maria Semedo docente da UNICV (Universidade de Cabo Verde).
Debate

PAINEL II O PATRIMÓNIO RELIGIOSO E A SALVAGUARDA DO LEGADO
Moderador: Ana Isabel (EST)
15h00 – Uma incursão O Património Religioso e a salvaguardar do legado
Padre António Ferreira – Ima (Paróquia Nossa Sra. da Graça)
15h20 – A Igreja de Santo Amaro Abade e seu valor patrimonial
Lourenço Gomes (UNICV)
15h40 – A Salvaguarda do Legado Religioso: Uma Abordagem Normativa e Operacional
Ana Samira Silva (curadoria: Cidade Velha)
Debate
17h00 – Lançamento do Livro Ribeira Brava: a urbe, História e crítica das suas obras de arte Lourenço Gomes – autor (UNICV)

Os dois painéis suscitaram debate, sendo de destacar a presença de vários alunos da UNICV, do curso de Gestão de Património, que interpelaram os intervenientes com várias dúvidas que prontamente foram respondidas pelos oradores.

DIA 12 DE JANEIRO
No segundo dia de conferências para além dos oradores nacionais, também os internacionais puderam realizar as suas apresentações, sendo de destacar as presenças da Douro Generation e da Missão Douro.

PAINEL III A GESTÃO DO PATRIMÓNIO IMATERIAL: EXEMPLOS DE BOAS PRÁTICAS
Moderador António Carlos Lopes (ETGH-SC)
09h00 – A Gestão do Património Imaterial: Exemplos de boas práticas em Cabo Verde
Sandra Martins (IPC)
09h20 – Cooperação entre Patrimónios da Humanidade como fator de Desenvolvimento Turístico
António Martinho (Douro Generation – Portugal)

RESUMO
“Sabendo da importância que a integração do Alto Douro Vinhateiro na lista de Patrimónios da Humanidade da UNESCO constituía para a região, conhecedores das virtualidades da riqueza cultural do Douro, mas também conscientes das debilidades desta região no que respeita aos vários indicadores de desenvolvimento, tentando encontrar resposta para essa questão, um grupo de cidadãos decidiu
criar a Douro Generation – Associação de Desenvolvimento (DG-AdD).

Desde início, tomou-se consciência que a cultura desempenha hoje um papel crucial nas motivações dos turistas. Mas também é um facto que ela é fator de desenvolvimento. Considerou-se, assim, que seria benéfico, de todo, inventar formas de cooperação entre destinos que se distinguem pela oferta de produtos culturais. A começar por destinos cujos territórios contêm regiões vinhateiras classificados pela UNESCO como Patrimónios da Humanidade, localizadas na Europa, mas de igual modo, Sítios que integram a lista da UNESCO e que são, de uma forma ou outra, expressões da cultura portuguesa, em vários países do Mundo, assim como Sítios de reconhecido valor natural. O World Generation Project dá corpo e expressão a essas formas de cooperação e partilha.
Consubstancia, de algum modo, o objeto da DG – AdD «fomentar a cooperação entre povos, regiões e nações, através da conceção, execução e apoio a programas e projetos que fomentem a preservação, valorização e promoção da riqueza histórica, cultural, ambiental e socioeconómica das regiões”

09h40 – Dar fala: Escutar / Interagir / Cooperar
Virginia Fróis (VICARTE – FBA.UL – Portugal)

PAINEL IV – TURISMO CULTURAL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Moderador: Victor Semedo (IPC)
11h40 – Alto Douro Vinhateiro Património da Humanidade – Plano de Gestão
Helena Teles (CCDR-N – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte – Portugal)

A Intervenção da Engenheira Helena Teles inicia com uma breve apresentação de quatro momentos na história do Alto Douro Vinhateiro: demarcação pelo Marquês de Pombal em 1756, classificação como Património da Humanidade pela UNESCO em 2001, plano intermunicipal de Ordenamento do território em 2003 e as comemorações dos 250 anos da demarcação. De seguida apresenta pormenorizadamente o PIOT, bem como os agentes envolvidos, a metodologia, os resultados alcançados, as atividades, a estratégia e os métodos de trabalho, terminado com um breve, mas elucidativo vídeo promocional da região.

12h00 – Turismo Cultural e Desenvolvimento Sustentável em Cabo Verde
Zilca Paiva (DGT)
12h20 – O Fundo do Mar de Tarrafal, um produto de destacado interesse turístico
Emanuel Tchares de Oliveira
Debate
13h00 – Leitura de Declaração de Braga – Tarrafal
12h50 – Sessão de Encerramento
Manuel Pina, Presidente ANMCV (Associação Nacional de Municípios de Cabo Verde)

CONCLUSÕES DO CONGRESSO
O congresso foi bastante positivo, uma vez que permitiu à comitiva, por um lado transmitir a sua experiência tanto ao nível da cooperação internacional, como da inovação na gestão de bens classificados, como ouvir e conhecer a política de conservação e promoção do património cultural de Cabo Verde. Especialmente as intervenções de Hamilton Jair do IPC, como de Ana Samira, curadora da Cidade Velha, foi possível compreender o trabalho já realizado, bem como as fragilidades da gestão de bens culturais em Cabo Verde. A intervenção de Zilca Paiva foi esclarecedora quanto ao papel do património cultural dentro da estratégia de promoção turística do país.

Visita ao Centro de Artes e Ofícios
A visita ao Centro de Artes e Ofícios, pela mão da sua impulsionadora, Virginia Fróis, professora de escultura Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, ofereceu uma perspetiva da dificuldade em organizar projetos na área do artesanato e do património imaterial.

Virginia Fróis investiga há vários anos a olaria de mulheres, ou seja uma arte produzida essencialmente para uso doméstico. No caso particular de Cabo Verde, a olaria de mulheres esteve praticamente perdida, tal como a tecelagem e cestaria, e foi por esta razão que foi necessário investigar as formas primitivas através de peças pertencentes ao museu de Etnografia de Lisboa.

Neste momento e depois de 10 anos de investigação, formação de oleiras, exposições, visitas a Portugal, em especial com o apoio da Câmara de Montemor o-Novo e das Oficinas do Convento, é possível ter
produção de olaria, respeitando os métodos e a morfologia vernacular.

No entanto ainda se sentem enormes dificuldades no escoamento da produção. Por um lado as oleiras vivem longe do centro e não têm nenhum meio de transporte para poder colocar os seus produtos à venda, e por outro, não existe uma estratégia coordenada com as autoridades para vender estas peças de valor acrescentado em lugares de fácil acesso a turistas.

Visita à Cidade Velha, Património da Humanidade – UNESCO
A visita à Cidade Velha, pertencente ao Município da Ribeira Grande, e classificada como Património da Humanidade desde 2009, foi acompanhada pela Curadora Ana Samira. Da área classificada destacam-se o Pelourinho, a rua da Banana, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e o Forte Real de São Filipe, mandado erigir durante o período Filipino, depois de ataques de corsários.

Toda a aérea encontra-se razoavelmente reabilitada, com especial destaque para o Forte, que se encontra em perfeitas condições de visita. A restante área melhorou bastante depois da intervenção do arquiteto Siza Vieira, no entanto, nem todo o projeto foi executado por falta de verbas. Da conversa estabelecida com a Curadora, concluiu-se que a população ainda não vê a classificação como uma mais valia, e que a falta de dinheiro e de uma estratégia de gestão do património é o maior obstáculo ao crescimento económico da área classificada.

Deste modo, a comitiva ficou de enviar o PIOT do Douro (Plano de Intervenção e Ordenamento do Território) como forma de auxiliar à gestão do bem classificado. Colocou-se à curadora a hipótese de trocar exposições entre a Curadoria da Cidade Velha e o Alto Douro Vinhateiro, através do Museu do Douro.

Sessão Solene, entrega de Medalhas e almoço com Presidente da República
Durante a sessão solene, foi possível escutar os discursos dos diferentes partidos com assento na assembleia geral da Câmara Municipal do Tarrafal, bem como ao discurso do Presidente da República. Para além da missão Douro Generation / Missão Douro, estiveram também presentes, tanto a comitiva da cidade da Amadora, cidade geminada, como de Montemor-o-novo. No final foram entregues medalhas aos cidadãos que pelas mais diversas razões, contribuíram ativamente para o desenvolvimento do município do Tarrafal.

Visita ao campo de concentração do Tarrafal
A visita ao campo de concentração do Tarrafal, essencial atendendo à sua importância histórica, não foi acompanhada por um guia, no entanto a partir de algumas conversas foi possível compreender um pouco o espaço.
É notória a necessidade de um tratamento museológico mais aprofundado, de maneira a que o visitante compreenda, na sua integridade, todo o espaço. Foi ainda referido a vontade de que esta prisão faça parte de um roteiro de prisões históricas.

Entrega de casa pela Câmara Municipal do Tarrafal na aldeia de Fazenda
A questão de casa própria é bastante complexa em Cabo Verde, uma vez que existe falta de habitação, até mesmo para alugar, e quando existe é notória a dificuldade do cidadão comum em pagar o aluguer.
O Governo tomou a iniciativa de criar um programa “Casa para Todos” onde se constroem casas, a baixo custo, para depois entrega-las aos cidadãos, que no entanto têm que contrair um empréstimo para a pagar, o que muitas vezes não é possível.

Por outro lado, o Município do Tarrafal, optou por uma estratégia diferente que passa por oferecer o terreno, os materiais, as licenças e o projeto da habitação, ficando a construção a carga da população. E foi precisamente a entrega de uma destas casas, a uma mulher com um filho com deficiência cognitiva, a que a comitiva assistiu, conjuntamente com as restantes delegações.

Festas Nhu Santo Amaro
No final da semana foi possível assistir às festas de Nhu Santo Amaro, aquelas sobre as quais a Câmara Municipal está um dossier de candidatura para incluir na lista nacional de Património Cultural Imaterial.

Nestas festas é notória a adesão da população, bem como a devoção ao santo, havendo várias pessoas que voam de Portugal e outros países europeus para estarem presentes nesta festividade, que sejam
originárias desta ilha como de outras do arquipélago.

Conclusão
Esta viagem a Cabo Verde permitiu à comitiva estreitar laços de amizade com as entidades locais como sejam a Câmara Municipal do Tarrafal, o IPC e a Curadoria da Cidade Velha, o que poderá resultar em
futuros projetos conjuntos, como a troca de exposições.

De um modo geral, foi possível compreender o território tanto as suas fragilidades ao nível da rede de abastecimento de água, de ligações logísticas entre ilhas e dentro da mesma ilha, a falta de guias e/ou de
roteiros turísticos, mas também as suas potencialidades enquanto destino turístico, não só de praia, mas também de montanha, surf, mergulho, passeios pedestres, gastronomia e artesanato.

Participantes
ANTÓNIO MARTINHO – Presidente da Direção da Douro Generation
ANA MORENO – Vogal da Direção da Douro Generation
HELENA TELES – Responsável pela Estrutura Missão Douro CCDR-N